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Hoje sinto-me... Lilás!

- Como está? – Os olhos dela devassavam-me a alma. Ela sabia como eu estava. Eu é que não conseguia descrevê-lo.

Enquanto os olhos se me alagavam, virei a cabeça num gesto inútil para que ela não me visse a tristeza. O que se diz num momento assim? Que se morreu por dentro, que nada em nós pretende prosseguir com absolutamente nada, que nos movemos roboticamente e por ação puramente mecânica, mas que a vida, pelo menos aquilo a que verdadeiramente chamamos de ‘vida’, já não existe, afundou-se, mergulhou nas profundezas escuras de um desgosto descomunal? Não, não se pode dizer isto a ninguém… Muito menos a uma psiquiatra desconhecida. Por isso permaneci em silêncio.
- O que pretende fazer? – A pergunta abalou-me como se tivesse levado um choque. Virei a cabeça para ela, a surpresa estampada em toda eu. Mas afinal eu ainda podia fazer alguma coisa? A sério? Fiquei a olhá-la, boquiaberta, tentando que o meu cérebro entendesse aquela mensagem… Estaria ela a tentar devolver-me o controlo sob…

Hoje sinto-me... Vermelha!

- Ah ah ah ah ah ah ah! Ontem estavas aí, esparramada na minha parede, a rir-te de mim! E hoje tirei-te, apaguei-te, arranquei-te desse lugar de destaque que nem sequer merecias e onde eu nunca te deveria ter colocado! Agora serás relegada para o lugar que verdadeiramente mereces: o lixo! Um brinde à tua nova posição! Viva! – E ergueu o copo bem alto antes de o levar aos lábios para mais um prolongado gole.

Preocupada, Madalena entrou no pequeno atelier onde Manuel, obviamente embriagado, prosseguia afanosamente a sua dissertação para a parede branca e vazia.
- Manuel, vá, já chega. Pintaste a parede, ela já não está aí, pronto. Acalma-te lá e descansa um bocadinho.
- Descansar? Tu achas mesmo que eu consigo descansar depois disto tudo? A sério? Claro que não consigo descansar. – E Manuel literalmente escorregou para o chão, na mão segurando firmemente o copo quase vazio. – À tua, Madalena! Brinda comigo!
- Está bem, mas só porque tu mereces. – Madalena foi buscar um copo para si, agarrou…

Hoje sinto-me... Azul!

Maria abanou a cabeça, sacudindo a farta cabeleira de negros caracóis. Duas grossas lágrimas deslizaram suavemente pelo seu sereno rosto e logo os claros olhos castanhos se inundaram de novo, brotando profusa e continuamente numa cadência perfeita: 5 segundos, 2 lágrimas, 5 segundos, 2 lágrimas, 5 segundos, 2 lágrimas…
Contemplava impotente a retroescavadora que implacavelmente lhe destruía a casa que fora sua nos últimos 40 anos. Ali casara, ali fora muito feliz, ali tivera os seus 3 filhos, provavelmente à custa de toda a água que sofregamente bebera da Fonte Santa, a fonte de águas milagrosas que, segundo afiançavam os locais, garantia gravidez na certa…
E agora aquilo, toda aquela destruição, já fora a igreja, agora as casas, os monumentos, tudo arrasado… Até o cemitério fora revolvido, violado, devassado, os corpos e ossadas trasladados. Nada iria escapar, nada exceto pequenas “lembranças”, como as pedras da Fonte Santa, destinadas a abrilhantar o museu que iria nascer na nova alde…

Hoje sinto-me... Castanha

Olá avô,
Faz hoje um ano que partiste e eu queria contar-te como estamos por aqui.
A avó continua muito triste, diz que te vê por todo o lado, chora muito e agora, que estivemos no Algarve, ela diz que não quer lá voltar, que era um sítio que tu adoravas e que te sente em todo o lado. Estou preocupado com ela, fala sozinha mas eu sei que está é a falar contigo. A avó Lúcia diz que ela está deprimida.
O pai está mais ou menos, fala pouco, enerva-se muito, fuma e bebe demais, o Xande e eu ficamos preocupados com isso, sobretudo quando ele começa a dizer mal da vida e que é tudo uma estupidez. Acho que ele sente muito a tua falta, avô. Agora arranjou uma cadelinha para lhe fazer companhia, chama-se Guga, é uma caniche, sabes como são os caniches, são aqueles que têm muitos caracóis e são pequeninos e levezinhos, com olhinhos muito redondos e vivos. A princípio não gostei muito dela, sabes que eu gosto mesmo é de gatos, de cães sempre tive muito medo, por isso não lhe ligava nenhuma. Mas ag…

Hoje sinto-me... Branca

Mateus,

Meu amigo, ontem fui ajudar-te a limpar a casa e acabei foi por deixar um rasto de destruição à minha passagem.
Ao entrar em tua casa, o Sebastião veio alegremente lamber-me as mãos. (Nunca te contei esta parte, mas eu besunto sempre as mãos com um pouco de mel para obter este tratamento especial. É o nosso segredo… Eu sinto-me importante por ele não fazer isso a mais ninguém e assim ele nunca me rosna…)
A minha amizade com o Sebastião é interesseira e até um pouco doentia, mas um pit bull é um pit bull e tu sabes bem como eu tenho medo de cães. Mas o pior é o Jeremias, que tem uns ciúmes doentios do Sebastião, e faz-me esperas atrás da porta, atirando-se às minhas pernas com as duas patas no ar só para me mostrar quem é que realmente manda ali. Só que desta vez eu desequilibrei-me e, ao tentar agarrar-me a alguma coisa com as mãos pegajosas, levei as mãos ao jarrão Ming e…
Entretanto o Sebastião, excitadíssimo, corria de um lado para o outro, arfando ruidosamente enquanto babava…

Hoje sinto-me... Amarela!

Este calor inclemente… Como se diz por terras africanas, poderia estrelar-se um ovo numa pedra exposta ao sol. Não sei se este será um indicador do aquecimento global, mas que está um calor infernal, lá isso está. Mas também é tempo dele, ou não será? Por que razão estaremos nós sempre tão insatisfeitos com o tempo que faz? Se chove é porque chove, se faz frio é porque faz frio, se está calor também protestamos, no fundo o tempo é sempre fonte de insatisfação… Seja ele qual for.
Ontem vi a Maria. Passeava distraidamente pelas ruas do Chiado, óculos de sol negros a esconder-lhe o olhar sombrio. Abraçámo-nos. Na verdade nunca sei o que dizer nestas circunstâncias, por isso prefiro escutar. Em silêncio.
- Dizem que o tempo cura tudo, não é verdade? – Perguntou-me ela, com a esperança a pairar-lhe na voz. Sim, aquela maldita e tão desnecessária esperança que nos corrói a alma até ao âmago da nossa essência, prendendo-nos a uma âncora que, impiedosamente, nos alicia para o fundo, para as cat…

Hoje sinto-me... Verde!

Hoje acordei com dúvidas existenciais… Ou será apenas uma crise de boas-vindas à maioridade? Assim como uma espécie de ritual de passagem, não sei se estás a ver: tornas-te oficial e legalmente adulto, pronto, toma lá uma crise existencial. Ai, não sei, não consigo definir esta ansiedade que de repente tomou conta de mim. Que vida quero? Que planos traçar? Que futuro, senhores, que futuro antevejo ou posso aspirar para mim mesmo? Que apostas fazer? Estarei no curso errado? Serei mais um a desembocar no poço sem fundo dos “que-apenas-sobrevivem-com-quinhentos-euros-mês”? Ficar ou partir? E partir para onde?
Sim, aniversário é época de balanço desde os meus dez anos. “O meu filho é uma alma velha”, segundo diz a minha mãe, que cedo percebeu o quão precoce eu era. “Ele sente muito, sofre muito, é muito profundo”. E eu olhava e escutava e não percebia o mal de sentir muito… Porque sentir muito é viver muito, vivenciar muito, experienciar muito… Não necessariamente sofrer muito. Ou assim ac…